ENTRE O SILENCIAMENTO E A NORMALIZAÇÃO: VIOLÊNCIA DE GÊNERO NA DOCÊNCIA DO ENSINO SUPERIOR
Palavras-chave:
Violência de gênero, Ensino superior, Dominação simbólica, Sofrimento docente, Divisão sexual do trabalhoResumo
Este artigo investiga a violência de gênero no trabalho docente do ensino superior como fenômeno estrutural, cuja persistência está articulada à divisão sexual do trabalho, à desvalorização simbólica da produção intelectual feminina e à reprodução institucionalizada de assimetrias de poder nas universidades brasileiras. A relevância do tema se evidencia nos dados do Censo da Educação Superior (INEP, 2023): embora as mulheres representem mais de 54% do corpo docente das IES, ocupam menos de 30% dos cargos de reitoria e pró-reitoria, revelando a distância entre presença numérica e equidade de poder. O objetivo central é analisar, a partir de referencial teórico crítico, as determinações estruturais da violência de gênero na docência universitária, evidenciando a articulação entre dominação simbólica, organização acadêmica do trabalho e sofrimento docente. A metodologia adotada é teórico-bibliográfica, com revisão narrativa da literatura fundamentada em Pierre Bourdieu, Christophe Dejours, Danièle Kergoat e Heleieth Saffioti, articulados a produções nacionais que contextualizam o fenômeno na realidade universitária brasileira. A pesquisa está dispensada de submissão ao CEP nos termos da Resolução CNS nº 510/2016. Os resultados evidenciam que a violência de gênero opera por mecanismos simbólicos de difícil reconhecimento: sub-representação feminina em cargos de poder, apagamento da autoria intelectual das pesquisadoras, assédio moral e sexual institucionalmente tolerados, sobrecarga de trabalho emocional invisibilizado e penalização produtivista das trajetórias interrompidas pela maternidade. Conclui-se pela urgência de políticas afirmativas, pela revisão dos critérios avaliativos que naturalizam o padrão masculino de produção e pelo fortalecimento de canais seguros de denúncia e acolhimento nas universidades.